Acho que a culpa é de Andy Warhol e o seu trabalho na Cambell’s Soup Cans. Depois disso o rótulo passou a ter uma importância impressionante nas nossas escolhas. Escolhemos o que vamos consumir dentro da lata, pelo que começamos a comer com os olhos por fora dela, fazendo assim um conceito a respeito do que tem lá dentro, mesmo antes de provar o conteúdo: Pré conceito. Das sopas de tomates de Warhol à lata do achocolatado da garotada, passamos assim a rotular nosso consumo.
Mas quando levamos essa cultura “enlatada” para o terreno musical a desgraça aumenta. Pessoas sem nenhum conhecimento sobre música, ou com conhecimento específico em um determinado gênero, rotulam preconceituosamente alguns segmentos musicais, sem ter o menor embasamento técnico ou sem nem ao menos conhecer o trabalho musical do cidadão.
Tava assistindo um vídeo no youtube, acho que gravado em 78, onde Caetano Veloso chamava o repórter e crítico Geraldo Mairinque de burro. Isso tudo, dentre outras coisas, porque o cara tinha metido o pau em alguns versos de canções do disco “muito”, qualificando-os de ruins e atribuindo a autoria ao ainda cabeludo baiano.
Os versos eram na verdade das canções Boneca de piche de Ary Barroso e Olha pro céu, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. “Os versos não são maus e não são meus” falou Caetano, mostrando o despreparo de Mairinque para falar de música popular brasileira sem conhecimento suficiente para isso.
Mas voltando as latas, digo, aos rótulos, quem mais sofre com tudo isso é o tal do brega. Começa logo pelo Aurélio que diz ser “deselegante, cafona”. A chamada música brega virou designação de musica romântica, melosa, de dor de cotovelo, mas não existe uma precisão estética quanto ao que venha a ser o tão falado e menosprezado estilo.
Aonde tem rótulo, tem preconceito e aonde tem preconceito tem ignorância e falsas conclusões. Exemplo: Fernando Mendes – brega, Caetano Veloso – M.P.B. Fernando Mendes – música de menor qualidade, Caetano Veloso – Musica de qualidade intelectual excepcional. E a música “você não me ensinou a te esquecer” de Fernando Mendes? É Brega ou intelectual? Era bregão até que Caetano gravou. Gênio da MPB! Que música linda do caralho, dissemos.
“Doce, doce amor, onde tens andado, digas por favor” cantava o brega Jerry Adriani, enquanto o antenado e alternativo Raul Seixas dizia “É você se olhar no espelho e se sentir um grandessíssimo idiota, saber que é humano, ridículo, limitado, que só usa dez por cento de sua cabeça animal”. Epa, mas peraí! Quem é o autor de doce, doce amor? Ele mesmo, Raulzito.
Esse preconceito corre em sentido oposto também. Você não pode dizer que não gosta de determinado cantor ou compositor do time dos intelectuais da MPB. Tenho um amigo, que embora respeite e saiba da importância histórica de Tom Jobim na musica mundial, caiu na besteira de dizer que não gosta da música do cara. Saltou logo uma metida a antenada e de gosto indiscutível e sacramentou: “Como pode ousar não gostar de Tom Jobim, isso é o fim, ele é o maior”. Por azar dela, esse meu amigo pegou uma carona com ela no outro dia. Ao entrar no carro falou: Coloca aí um Cd de Tom Jobim pra eu poder escutar e mudar minha opinião. “Cd de Tom Jobim? Tenho não”. Mas em casa você deve ter uma coleção! – retrucou ele – “Na verdade não. Gosto muito, mas não tenho nada dele”. Pergunto: Gosta mesmo, ou diz que gosta só para parecer que tem gosto refinado? Em comunicação, uma teoria chamada efeito da terceira pessoa explica isso.
Isso sem falar na música internacional. Ouvimos e admiramos um pop/rock que quando traduzido deixa qualquer Amado Batista no chinelo. “Eu morri todos os dias esperando você. Amor, não tenha medo. Eu te amei por mil anos e te amarei por mais mil” canta Christina Perri na sua “a thousand years”; enquanto isso Rihanna em “diamonds” diz que “Eu logo soube que nos tornaríamos um só. Oh! Bem no começo, à primeira vista eu senti a energia dos raios do sol, vi a vida dentro dos seus olhos”.
Mas voltando ao brega, um dos únicos que tem coragem de se intitular cantor Brega é o rei: Reginaldo Rossi.Mas cá pra nós, que ele não me escute: O cara dá um show de M.P.B. da melhor qualidade. Uma aula musical que várias pessoas deveriam assistir para aprender um pouco mais sobre o assunto, antes de sair por aí colocando rótulos ou selos de qualidade em latas que não se tem idéia do conteúdo. Melhor não se meter e deixar isso para Andy Warhol. Pelo menos competência e conhecimento para isso ele tinha.

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