sexta-feira, 7 de junho de 2013

Ninfoléxico maníaca

Ela tinha duas grandes paixões na vida: O sexo e a língua portuguesa. Paixão é pouco, ela era tarada, maníaca pelas duas coisas. Não conseguia viver sem transar e sem gramática. Seu maior sonho de consumo em matéria de luxuria era fazer amor com Professor Pasquale dentro da biblioteca nacional, em cima de uma mesa. Ela apoiando a cabeça em um dicionário Aurélio e ele usando dois exemplares de sua própria gramática em baixo de cada pé para ficar na altura certa. Só de pensar nisso ela delirava de prazer.
Era professora de português, é lógico, e daquelas bem duronas. Colar com ela? nem pensar! E teste oral de conjugação de verbo e ditado era quase todo dia e de surpresa. Quem é bom mesmo, é na seca, na hora, sem subterfúgios. Um exemplo de dedicação. Quando não estava preparando aula estava pensando ou tentando fazer sexo. Para você ter uma ideia, se perguntassem para ela qual a sua rotina preferida ele diria: do trabalho pro motel, do motel pro trabalho.
O grande problema é arranjar um homem para dividir com ela a cama e seus mais devassos desejos. No começo, ela olha pro cara e parte para o ataque: É esse. Mas quando o cara fala.... fudeu! Ou melhor, não fudeu neste caso. Basta um pequeno deslize com a língua mãe que ela não é nem um pouco gentil.
___ A gata tem “pograma” pra hoje?
___ Vá fazer “pograma” com a senhora sua mãe, e nos seus programas não me inclua.
Chegava sempre reclamando com as amigas que não conseguia arranjar o homem ideal, que não se fazia mais homem como antigamente. Enquanto isso, cada uma que falasse mais dos dotes dos seus amados e amantes. O meu faz isso que é uma maravilha, menina! Já o meu tem uma habilidade naquilo outro de me deixa sem ar! Aí é que ela ficava louca, um calor subindo.
A bem da verdade, pouca coisa desses detalhes interessava, ela queria mesmo era sexo, com qualquer um, de qualquer maneira. Era começar e em dois segundos ela já tava subindo pelas paredes, se conjugasse um verbo irregular na hora h! Nossa senhora! Era mais de meia hora de gemidos e sussurros. Se fosse no pretérito mais que perfeito nem se fala.
Mas o problema era arranjar este cara. Na faculdade a maioria dos professores eram professoras e os representantes da ala masculina não representavam assim tão bem a classe. Quanto aos alunos, ela já tinha reprovado todos na cama. A bem da verdade nunca chegava na dita cuja de fato. Nas preliminares existia sempre um deslize léxico ou gramatical que mandava o clima pro espaço.
O que chegou mais perto foi um aluno do curso de direito, ele tava pegando-a de jeito, já quase partindo pros finalmente, quando o desgraçado inventa de pedir: Vem querida, me chama de seu "adevogado"! ___ O resto nem precisa dizer. O cara acabou de vestir a roupa na garagem, com ela já pedindo a conta no portão de saída do motel.
Teve um outro, quase concluinte de administração que tava nos amassos dentro do fusca dele, no banco de trás, beijo pra lá, beijo pra cá, ela inventa de perguntar: Gostas dos meus beijos? ___ Gosto sim, chega "viceia"! Vocês não têm ideia de como essa moça saiu deste carro pelo vidro do passageiro, que só para ilustrar, tava só pela metade.
A pérola foi um carinha que ela conheceu na balada. Esse ela não quis nem conversa, chamou o cara pra dançar e quando o cara começou a esboçar a tentativa de começar a primeira frase ela tascou-lhe um beijo de boca daqueles de tirar o fôlego.
Era só felicidade não desgrudou da boca do cara a noite toda, já tava subindo o telhado de tanto prazer. Agora vai! Inebriada de prazer ela descuidou, ele olhou bem no fundo dos olhos já revirando dela e disse: Agora "nós vai" pro motel? Ela botou uma cara de decepção tão grande, já ia saindo quando ele errematou: Qual o "plobrema"?
Já estava desiludida, não acreditava mais que apareceria o seu príncipe encantado, o seu Pascoale, o seu Aurélio. Até que um dia, em plena biblioteca ela deixa um livro cair, não percebe, só sente aquela mão tocando-lhe o ombro e dizendo: Senhora, deixou, por descuido que caísse de suas mão este belo exemplar da literatura mundial. Era Camões, o livro, não o cara. Ele se chamava Aureliano Pasqual.
Foram horas de conversa na biblioteca. Ela encantada, excitada, apimentada, tarada e mais um bocado de “adas” desses. Ele se despediu perguntando se poderia lhe dar um ósculo e um amplexo. Gamou de vez. Não só pelo beijo e pelo abraço, mas amplexo para ela era a perfeição da língua portuguesa. Uma palavra perfeita morfologicamente, lexicalmente e mais outro bocado de “mente”.
Marcaram um motel para aquela mesma noite. Não esperaria mais nem um dia. Ia tirar o atraso de anos de espera.
No motel tudo perfeito, o vinho, a música os livros que levaram, as poesias recitadas. Eles se tocaram, se beijaram, rodopiaram dançando alegremente. Ligaram a banheira e ele foi discretamente ao banheiro. Ela inocente acompanhou e só viu ele acabando de engolir alguma coisa.
Era viagra, contava ela desesperada às amigas na manhã seguinte. É a mesma coisa de tirar 10 na prova colando, é desonesto, eu não mereço. E batia com toda força o Camões na cabeça.


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